terça-feira, 29 de agosto de 2017

Nada anteponhas ao Amor de Cristo

“Aquilo de que precisamos em primeiro lugar neste momento da história são homens que, por meio da fé iluminada e vivida, tornem Deus crível neste mundo. [...] Precisamos de homens como Bento de Núrsia, o qual, num tempo de dissipação e decadência, mergulhou na mais extrema solidão, conseguindo, depois de todas as purificações pelas quais teve de passar, voltar à luz, retornar e fundar, em Monte Cassino, a cidade sobre o monte que, em meio a tantas ruínas, juntou as forças das quais se formou um mundo novo. Assim, Bento, como Abraão, tornou-se pai de muitos povos.” Quando o cardeal Joseph Ratzinger, em 1º de abril de 2005, em Subiaco, concluía com essas palavras sua conferência inaugural “A Europa na crise das culturas”, ninguém podia imaginar o que aconteceria dali a pouco.
No dia seguinte, morria o amadíssimo papa João Paulo II e, depois de poucos dias, em 19 de abril, o cardeal Ratzinger era eleito Bispo de Roma e, portanto, pastor supremo da Igreja Católica, assumindo o nome de Bento XVI.
Com esse nome, o Papa se ligava ao predecessor Bento XV, empenhado na defesa da paz e na evangelização do mundo inteiro e, de modo todo particular, se ligava a São Bento, legislador do monaquismo ocidental e patrono da Europa. A devoção pessoal e a partilha da espiritualidade profunda de São Bento, expressa pela repetida citação do capítulo 4, versículo 21 da Regra – “Nihil amori Christi praeponere” – ligam o Santo Padre ao santo de Núrsia.
Tudo isso fez nascer em muitos o desejo de conhecer um pouco mais a figura e a obra de São Bento, figura tão exaltada quanto pouco familiar, pela aparente distância que a separa da vida comum e pelo afastamento cronológico de nós.
A respeito de São Bento, sabemos o que nos diz o papa Gregório I Magno (590-604) no Segundo Livro dos Diálogos, e possuímos um só escrito de próprio punho do santo, a Regula monachorum.
Bento nasceu por volta de 480, em Núrsia. Depois de um período de estudos em Roma, retirou-se para Subiaco, onde viveu cerca de três anos como eremita numa grupo perto do mosteiro do monge Romão. Por volta de 500, começou a reunir discípulos, fundando, a partir das ruínas do palácio de Nero, treze mosteiros de doze monges cada um, reunidos em torno de um abade, segundo o modelo apostólico. Vários acontecimentos e uma nova visão da vida monástica como única família em torno de um só abade o levariam, em 529, a deixar Subiaco para dirigir-se a Monte Cassino, onde fundaria a “Cidade sobre o monte” da qual toda a tradição monástica se orgulha. Lá, em 21 de março de 547, enquanto rezava de pé sustentado por dois discípulos, morreu.
São Bento é conhecido hoje como patrono da Europa. No entanto, para dizer a verdade, há aspectos de seu itinerário pessoal e dos propósitos de sua obra que poderiam tornar difícil reconhecer a legitimidade desse patronato.
De fato, quando São Bento nasceu, o Império Romano do Ocidente desaparecera havia pouco e a Europa romanizada estava dividida em numerosos potentados locais em guerra com a parte latina e, muitas vezes, também entre si. Seria preciso esperar os séculos VIII e IX para encontrar de novo o projeto de algo que remetesse a uma unidade territorial “européia”.
Além disso, São Bento viveu toda a sua vida numa região restrita, no entorno de Roma, e, mesmo tendo relações com pessoas importantes de seu tempo, não parece que tenha viajado ou conhecido outros contextos culturais.
Enfim, a finalidade da instituição que São Bento concebeu não era promover um relançamento da cultura antiga ou um renovado impulso missionário da Igreja entre as tribos bárbaras, esforços tentados por realidades monásticas da época, mas a busca de Deus como único objetivo da vida. “Quaerere Deum”, esse é o ideal que São Bento propõe ao irmão que pede para entrar no mosteiro, e para promover essa busca organiza a comunidade em torno da leitura meditativa das Sagradas Escrituras, da oração e de um conjunto de atividades que permitem a vida prática e o desenvolvimento das relações de caridade fraterna.
Onde é que está a Europa em tudo isso? Onde é que está o programa bem-sucedido de integração entre romanidade e mundo germânico e eslavo?
Em lugar nenhum, como consciência; em toda parte, como premissa e raiz.
A busca séria de Deus pressupõe, para o monge cristão, o conhecimento desses documentos insubstituíveis da fé que são as Sagradas Escrituras. No armarium da sacristia, núcleo das bibliotecas monásticas, conservam-se, além dos códigos litúrgicos, também aqueles que contêm a Bíblia e os principais comentários dos Padres da Igreja. Bem cedo, a necessidade de uma melhor compreensão do texto sagrado impelirá os monges a aprofundarem também conhecimentos gramaticais e sintáticos que só pelo estudo dos autores clássicos e por sua metódica interpretação podiam adquirir. Tudo isso levou ao admirável fenômeno da conservação da cultura antiga, cujo mérito ainda se atribui ao monaquismo. Muitas vezes, porém, esquece-se como no fervor do debate que acontecia nas escolas monásticas se desenvolveu uma teologia peculiar, que padre Jean Leclerq chamará “sapiencial”, herdeira da grande tradição patrística e fortemente modelada pela prática da lectio divina, onde a finalidade da alimentação espiritual levará sempre a melhor sobre a academia especulativo-científica.
A verdade captada na meditação das sagradas páginas bem cedo res­plandeceu na criação artística mais variada e original. Os copiadores dos códigos litúrgicos e bíblicos adquiriram o costume de ornar os textos com esplêndidas miniaturas, verdadeiras pausas meditativas e explicativas. Da mesma forma, os arquitetos das basílicas e das igrejas monásticas descobriram como utilizar os mais variados expedientes para repropor a própria verdade evangélica. O que são certos capitéis românicos, senão verdadeiras meditações da Palavra, feitas por meio da pedra? O que são os grandes ciclos de afrescos das igrejas senão maneiras para pôr a todos em condições de se aproximarem do texto sacro, justamente por isso definidos Biblia pauperum? O que é o canto gregoriano, senão a expressão bem-sucedida de uma meditação musicada das Sagradas Escrituras?
Tudo isso, retomado e relançado pela corte carolíngia por obra de Alcuíno e de São Bento de Aniana, iria se tornar, a partir do final do século VII e, de maneira mais convicta e sistemática, nas primeiras décadas do século IX, patrimônio de todos e, no esforço de dar unidade cultural ao renovado Império, humus da renascente cultura européia. Os castelos, as catedrais e as centenas de mosteiros já espalhados também para além do Reno e da Vístula iriam se tornar postos avançados e centros fundamentais da exaltante temporada histórica que, apesar das sombras do século X, daria seus melhores frutos no florescimento da Idade Média.
As exigências da vida comunitária fizeram também desenvolver ou afinar algumas categorias que seriam fundamentais para a integração dos novos povos com a idade clássica e para seu crescimento humano.
Em primeiro lugar, a concepção do tempo e do espaço. Aos novos povos, na maioria nômades, acostumados a viver sob o céu e no horizonte de uma terra que deve ser percorrida com arco e flechas e a cavalo, os mosteiros ofereciam o exemplo de uma vida comunitária na qual as várias ocupações – a oração, o estudo, o trabalho, a refeição, a discussão, o repouso, etc. – aconteciam em tempos fixados e em lugares indicados. Nunca se poderá calcular completamente a força civilizadora e educadora dessa operosa regularidade que, dos mosteiros, viria a se difundir por toda parte acompanhada dos toques severos do sino que chama às várias ocupações: “Pois o ócio é inimigo da alma”.
São Bento admoesta o abade a lembrar-se sempre de que não deve guiar pessoas fortes ou perfeitas, mas fracas e pecadoras. Nasce daqui a preocupação de estar atento às exigências de cada um e, mesmo tendo o dever de orientar a todos segundo a Regra, de não deixar que ela se torne um obstáculo para ninguém. Produziríamos uma longa lista se enumerássemos os muitíssimos casos em que a dialética entre a observância literal e a exceção legítima se resolve, de acordo com o julgamento do abade, na escolha da solução mais atenta à necessidade concreta da pessoa ou da comunidade. Dessa forma, mesmo respeitando a paternidade do abade, expressão da paternidade divina, o monge se compreende como pessoa portadora de uma dignidade própria inalienável, com direitos e deveres precisos derivados da lei divina e reconhecidos pela Regra. Seguramente, o caminho para a moderna concepção da pessoa e das justas relações com a autoridade será longo e deverá passar por vicissitudes históricas dolorosas; todavia, existe aqui uma base fundamental, pois todos somos filhos de um único Pai e todos somos irmãos em Cristo, mesmo desempenhando tarefas comunitárias diferentes.
Enfim, como não lembrar a nova dignidade que a Regra confere ao trabalho manual? Sabemos como na Antigüidade só eram consideradas dignas do homem livre as atividades relativas ao governo e as atividades intelectuais e, com relação aos povos novos, as atividades da guerra. Diante dessa mentalidade, os mosteiros, muitas vezes compostos por monges provenientes da antiga ou da nova nobreza, davam testemunho de um trabalho manual assumido como disciplina e como instrumento de adaptação da realidade circunstante às exigências da comunidade, segundo o princípio: “Cada um viva do próprio trabalho”. Nesse mesmo campo, dadas as complexas contingências históricas que pouco a pouco se ofereceriam, a família beneditina também daria contribuições fundamentais para a Idade Média européia.
A partir dessas notas, é possível compreender como a construção da Europa está inseparavelmente ligada à força irradiante e estruturante da intuição espiritual de São Bento. Uma convincente concretização da fé evangélica, que, quase naturalmente, torna-se cultura e fermento de opções sociais que, permitam-nos a expressão talvez um pouco ousada, deixariam vislumbrar do século XI ao século XIII – a época de Cluny e de Citeaux – o sonho realizado de uma Europa civilizada e unificada em nome de Cristo.
Para concluir, eu gostaria de voltar à expressão que o Santo Padre gosta de repetir: “Nihil amori Christi praeponere”. Como já se disse, essa frase – mas eu preferiria dizer: esse programa de vida – encontra-se na Regra de São Bento, que, por sua vez, a recebe do célebre comentário ao Pai nossode São Cipriano, bispo de Cartago e mártir. Ela funde a espiritualidade dos mártires com a dos monges. Creio que nosso tempo seja sensível como poucos outros ao fascínio dessa mensagem. Quando o papa João Paulo II apontava a todos o desafio de buscar e viver uma santidade elevada, convidava a percorrer as veredas da verdade e da coragem, justamente como os monges e os mártires o fizeram.
Como os monges de todos os tempos, nós também devemos buscar a verdade com confiança e tenacidade, sem nos cansarmos ou termos medo de percorrer, em toda a sua complexidade, os caminhos da cultura moderna, às vezes fragmentados ou interrompidos, mas sempre cheios de humanidade, “per ducatum Evangelii”.
E uma vez que a verdade nos te­nha surpreendido e fascinado, não devemos ter medo de propô-la e testemunhá-la, nem ser afobados ao fazê-lo. De fato, nós não o faremos para afirmar uma convicção nossa, mas para documentar a existência de um amor que a todos nos precede, a todos nos sustenta, a todos nos espera, imitando, assim, as comunidades monásticas medievais, que, próximas das grandes cidades ou perdidas em meio às florestas, estabelecidas dentro de contextos cristãos ou espalhadas por terras pagãs hostis ou indiferentes, mantinham seu “passo” feito de oração, de estudo, de trabalho e de amor, à espera de que... 

O Grande Silencio

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terça-feira, 1 de agosto de 2017

Santo Afonso de Maria Ligório

Afonso de Ligório nasceu no dia 27 de setembro de 1696, no povoado de Marianela, em Nápoles, na Itália, filho de pais cristãos, ricos e nobres, que, ao se depararem com sua inteligência privilegiada, deram-lhe todas as condições e todo o suporte para tornar-se uma pessoa brilhante.
Enquanto seu pai o preparava nos estudos acadêmicos e científicos, sua mãe preocupava-se em educá-lo nos caminhos da fé e do cristianismo. Ele cresceu um cristão fervoroso, músico, poeta, escritor e, com apenas dezesseis anos de idade, doutorou-se em direito civil e eclesiástico.

Passou a advogar e atender no fórum de Nápoles, porém jamais abandonou sua vida espiritual, que era muito intensa. Sempre foi muito prudente, nunca advogou para a Corte, atendia a todos, ricos ou pobres, com igual empenho. Porém atendia, em primeiro lugar, os pobres, que não tinham como pagar um advogado, não por uma questão moral, mas porque era cristão.

Depois de dez anos, tornara-se um memorável e bem sucedido advogado, cuja fama chegara aos fóruns jurídicos de toda a Itália. Entretanto, por exclusiva interferência política, perdeu uma causa de grande repercussão social, ocasionando-lhe uma violenta desilusão moral. A experiência do mundo e a forte corrupção moral já eram objeto de suas reflexões, após esse acontecimento decidiu abandonar tudo e seguir a vida religiosa.

O pai, a princípio, não concordou, mas, vendo o filho renunciar à herança e aos títulos de nobreza, com alegria no coração, aceitou sua decisão. Afonso concluiu os estudos de teologia, sendo ordenado sacerdote aos trinta anos, em 1726. Escolheu o nome de Maria para homenagear o Nosso Redentor por meio da Santíssima Mãe, aos quais dedicava toda a sua devoção, e agora também a vida.

Desde então, colocou seus muitos talentos a serviço do Povo de Deus, evidenciando ainda mais os da bondade, da caridade, da fé em Cristo e do conforto espiritual que passava a seus semelhantes. Em suas pregações, Afonso Maria usava as qualidades da oratória e colocava sua ciência a serviço do Redentor. As suas palavras eram um bálsamo aos que procuravam reconciliação e orientação, por meio do confessionário, ministério ao qual se dedicou durante todo o seu apostolado. Aos que lhe perguntavam qual era o seu lema, dizia: "Deus me enviou para evangelizar os pobres".

Para viver plenamente o seu lema, em 1732, fundou a Congregação do Santíssimo Redentor, ou dos Padres Redentoristas, destinada, exclusivamente, à pregação aos pobres, às regiões de população abandonada, sob a forma de missões e retiros. Ele mesmo viajou por quase todo o sul da Itália pregando a Palavra de Deus e a devoção a Maria, entremeando sua atividade pastoral com a de escritor de livros ascéticos e teológicos. Com tudo isso, conseguiu a conversão de muitas pessoas.

Em 1762, obedecendo à indicação do papa, aceitou ser o bispo da diocese de Santa Águeda dos Godos, diante da qual permaneceu durante treze anos. Portador de artrite degenerativa deformante, já paralítico e quase cego, retirou-se ao seu convento, onde completou sua extensa e importantíssima obra literária, composta de cento e vinte livros e tratados. Entre os mais célebres estão: "Teologia moral"; "Glórias de Maria", "Visitas ao SS. Sacramento"; além do "Tratado sobre a oração".

Depois de doze anos de muito sofrimento físico, Afonso Maria de Ligório morreu aos noventa e um anos, no dia 1º de agosto de 1787, em Nocera dei Pagani, Salerno, Itália.

Canonizado em 1839, foi declarado doutor da Igreja em 1871.
O papa Pio XII proclamou santo Afonso Maria de Ligório Padroeiro dos Confessores e dos Teólogos de Teologia Moral em 1950.

Santo Afonso de Maria Ligório, rogai por nós.