domingo, 28 de janeiro de 2024

- O Eremita Urbano: a vida monástica na cidade -

 





O monaquismo urbano funciona? O que é um eremita urbano? Como é por qual razão viver um estilo de vida monástico solitário dentro da cidade? Quem são essas pessoas?


Ao longo dos séculos, novas formas e expressões da vida monástica foram dadas, tanto na tradição cristã do Oriente como do Ocidente. E elas continuam a desenvolver-se hoje, na nova paisagem do mundo moderno, onde a vida do eremita, a do monge na solidão, não se limita ao meio rural, mas também encontra seu lugar na cidade. Os monges e monjas dos séculos XX e XXI serão eremitas e cenobitas, viverão em comunidades e em solidão, no campo e na cidade.


A vida monástica tem apenas uma regra: o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. O objetivo e o propósito da vida monástica é a união com Deus, a unificação da pessoa, a salvação humana, a iluminação e a sabedoria; numa palavra: a felicidade. Portanto, a vida monástica, em todo tempo e lugar é um esforço comprometido e consagrado de viver fielmente os preceitos de Cristo. A vocação monástica surge sempre e onde quer que seja, como uma resposta direta ao chamado da graça. O eremita urbano se acha imerso nos tesouros da tradição monástica, é uma expressão integral no aqui e agora dessa mesma tradição.


O carismático e audacioso Bede Griffiths, o beneditino que levou sua vocação monástica à Índia e depois retornou, escreveu em The Marriage of East and West, que:

Seja qual for o destino deste mundo atual, a necessidade real é encontrar um modo de vida que seja capaz de sobreviver a todos os seus desastres. Durante o Império Romano, foi a vida monástica que salvou o mundo […] os monges que fugiram para os desertos do Egito, Palestina e Mesopotâmia fundaram um estilo de vida baseado na oração e no trabalho sob condições da mais extrema pobreza e simplicidade; e completamente sozinhos, eles sobreviveram ao colapso do Império Romano […] seus ensinamentos e exemplos levaram à fundação de monastérios por toda a Europa, lugares onde a base da nova civilização seria encontrada. Hoje em dia (…) está havendo um ressurgimento da vida monástica em todo o mundo […] que são centros de fermentação que poderiam gradualmente transformar a sociedade e tornar possível uma nova civilização.


O mundo de Bede Griffiths talvez pareça estar longe das metrópoles barulhentas como Nova York, Chicago, Washington, Paris, Barcelona ou Hong Kong. Contudo, as verdades eternas a que Bede se referiu são os imperativos evangélicos que suscitam a existência da vida monástica; trata-se de maneiras novas e antigas, tanto hoje como ontem. Isso que levou Bede Griffiths a viver a sua vida monástica em um mundo distante, num Ashram Hindu, é o mesmo ímpeto que proporcionou solitárias aventuras monásticas no coração da cidade.


Não há geografia, tempo ou espaço onde o monasticismo não possa prosperar e onde a vida contemplativa não possa crescer.


A oração, o trabalho, a pobreza e a simplicidade são a base de um coração monástico. Seja sozinho, como um solitário ou eremita, ou estando no meio de uma comunidade, o caminho do monge e da monja é estarem imersos em Deus, concentrados no evangelho de Cristo que vive sua vida, respiração seu alento; é para ser mergulhado nos absolutos eternos sobre os quais não há dúvidas, nem geografia delimitada; nem barreiras de idade, tempo, lugar, cultura ou condição.


Em tempos passados, o deserto era uma cidade, de acordo com o DJ Chitty em seu clássico trabalho sobre monaquismo: The Desert a City. Hoje, talvez possamos dizer de outra maneira: a cidade é um deserto. Mas o que esse deserto, que é tão fundamental para a vida do monge, implica?


O deserto é a terra desolada e selvagem; a solidão árida e o profundo silêncio. O deserto é a reclusão onde o monge busca, em oração e penitência, o esvaziamento de si mesmo (kenosis), a livre renúncia dos desejos egoístas; é aí onde ele se esforça para o esvaziamento interior na expectativa do tempo de Deus (kairós), da manifestação da graça divina.


O eremita urbano é um tipo de monge entre os muitos que existem. E assim como monges em toda parte, está consagrado a Deus através de votos ou promessas sagradas, sejam públicas ou privadas, temporárias ou perpétuas. E são formuladas de maneira tradicional, com a pobreza, a castidade, a obediência e a estabilidade; ou podem ser expostos de maneiras criativas e inovadoras.


Mas o significado é o mesmo. O monge é um consagrado, oferecido, entregue ao serviço completo de Deus; inalterável em seu amor, cheio de uma extensa caridade que define seu coração como um amante do Senhor e compassivo com suas criaturas.


O amor sustenta o estilo de vida da vocação monástica. O monaquismo é uma vida de união e de unidade, de comunhão e de comunidade, de silêncio e de solidão, de profundidade e diversidade. O amor é o chamado; o amor, a vocação; o amor é o caminho, a via, o significado e a recompensa.


Deus, e não um inventor humano, é aquele que faz os monges. E ele os faz quando e onde quer que ele queira.

Quando toda a concentração do coração está fixa em Deus, a vocação monástica pode tecer um fio estranho. Talvez não seja mais o mesmo sonho que se tinha inicialmente ao embarcar-se na jornada monástica. Como a vida se desdobra, o mesmo acontece com o chamado de Deus. A consagração, a dedicação, a imersão em Cristo, isto é o que permanece; tudo o mais é circunstancial.


Portanto, à medida que a graça de Deus se desdobra na história humana de uma pessoa, a delicada sintonia de uma vocação monástica vai se ajustando ao indivíduo. Em outras palavras, quem somos e o que desde a mão de Deus e o ventre de nossa mãe, finalmente determina quem devemos ser e o que temos de ser. O mistério da santificação às vezes se vê condicionado pela transição, mas sempre e em todos os lugares repousa nas mãos de Deus.


Ser consagrado significa viver na presença de Deus, centrar-se nele, dedicar-se a ele, e pertencer-se a ele, não importa as condições de vida que, depois de tudo, são só o entorno, e não a essência da vocação monástica. Não é surpreendente, então (não deveria ser), que encontremos monges e monjas vivendo sozinhos na cidade, a anos de distância e a quilômetros de onde sua jornada monástica começou. Isso também faz parte do mistério da salvação.


A bela Regra de Vida, criada há quase vinte anos atrás pelo Pe. Pierre-Marie Delfieux para a Comunidade de Jerusalém, monges da cidade, diz:


[…] Você pode viver no coração de Deus estando no coração da cidade, pois este também é o seu lugar de residência. Seja um monge ou monja no coração da cidade de Deus “(N ° 128).


E isso é verdade tanto para os indivíduos como para as comunidades. Na ausência de um apoio financeiro que possa conceder a ilusão de segurança e confiança, ao mesmo tempo permitir uma separação completa do mundo, o eremita urbano tem que sair todos os dias para enfrentar a confusão e agitação da cidade apenas para viver E é exatamente assim que tem que ser.


Ser “um monge ou monja no coração da cidade de Deus” é trabalhar no meio da humanidade, sofrer os problemas e dificuldades do trabalho, a disciplina das tarefas que fazem parte do local de trabalho. Trabalhar no mundo real não é uma distração; é, antes, um chamado ao mais generoso e absoluto imperativo: focar no coração, voltar-se para dentro enquanto se permanece no trabalho do lado de fora. Não há dualidade nesse processo. É um ato de unificação, parte e parcela da experiência monástica: ora et labora (reze e trabalhe).


A tarefa de equilibrar a vida interior contemplativa com o trabalho externo, se se estiver no centro da cidade, requer uma perseverança particular. A princípio, parecerá impossível permanecer contemplativo na atmosfera agitada da cidade. 


Mas não, não é impossível. O coração clama a Deus: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador” e vai aprendendo, pouco a pouco, a orar com facilidade em meio à atividade barulhenta e do frenesi selvagem da cidade. 


Com o tempo, o monge no mundo entende que o centro mais profundo é a própria força impenetrável da alegria, da fé, do espírito e da vida.

Mais tarde, em sua regra, o padre Pierre-Marie diz:


O que os primeiros monges saíram para buscar ontem no deserto, você encontrará hoje na cidade. Toda a vida monástica é uma luta, e o monaquismo urbano chama os lutadores (de) […] Seguidores de Cristo: as bem-aventuranças os convidam para uma vida de verdadeira luta no coração da cidade (nº 129).


Não há proteção alguma, exceto Deus, para o eremita urbano que vive e repousa no mundo real, no meio de uma realidade tão dura e nua como sempre foi o coração do deserto. Como os Padres e Irmãs do Deserto, o eremita urbano conhece o isolamento e a ameaça da natureza selvagem, o rugido das feras e a tentação do coração. Encontrar a paz na cidade é andar com Deus no centro mais profundo do próprio ser.


O Monastic Typicon de New Skete (1980) diz o seguinte sobre o trabalho:


Ao longo da história, os nossos pais e irmãos na vida monástica têm ensinado que o trabalho não só é necessária para o sustento, mas é igualmente importante como um meio de autodisciplina e como uma ajuda para a oração, adoração e o pleno crescimento individual. O trabalho, portanto, é parte e parcela integrante de nossa vida, especialmente porque é essencial à vida monástica em geral (números 71 e 72).


O eremita urbano, ligado ao trabalho para as mesmas necessidades que caracterizam todas as pessoas, terá sorte se puder obter seu sustento diário fazendo o trabalho em sua casa, dentro da poustinia; mas nem sempre isso acontece. Na verdade, raramente é possível. O monge que está no mundo deve aprender a se adaptar para trabalhar sob as condições próprias de uma determinada profissão ou em qualquer outro lugar, seja uma tarefa manual ou intelectual. O trabalho reúne o monge com pessoas de todo o tempo e lugar. “Comerás o pão com o suor da tua face” (Gn 3,19); com o tempo, o próprio trabalho será doce para o monge, porque é apenas outra expressão do canto interior do coração: “Senhor Jesus Cristo, filho de Deus, tem piedade de mim, pecador”.


Dizem que o hábito não faz o monge. Nem o trabalho. O que é essencial na espiritualidade monástica é que o trabalho e qualquer outra dimensão da vida sejam caracterizados por um espírito interno de recolhimento, pureza de intenção e total atenção. O trabalho é um processo de santificação, não uma distração. À medida que avançamos mais e mais nas profundezas da fé para realizar adequadamente a nossa própria tarefa, tanto o trabalho como o trabalhador ver-se-ão imersos e banhados pela luz da presença divina. Deste modo, o monge que está no mercado (de trabalho) se encontra como em casa no mundo de Deus.


Na contemplação em um Mundo de Ação, (Contemplation in a World of Action) Thomas Merton escreveu, décadas atrás, o que pode talvez ter sido o prelúdio para os monges no mundo de hoje: “Será que realmente escolhemos entre o mundo e Cristo, como se fossem duas realidades em conflito totalmente opostas? Ou escolhemos a Cristo escolhendo o mundo como é nele, ou seja, criado e redimido por ele? Será que realmente renunciamos a nós mesmos e ao mundo para encontrar Cristo, ou renunciamos a nosso “eu” alienado e falso para escolher nossa verdade mais profunda, escolhendo tanto o mundo quanto Cristo ao mesmo tempo?


O eremita urbano, quer esteja imerso na solidão ou no trabalho fora de sua ermida, procura integrar a vida contemplativa da Poustinia com o mercado de trabalho onde se ganha a vida. Renuncia o falso eu e a transcendência do espírito deste mundo, através da prática interior de recolhimento e da oração contemplativa, purifica o coração e transforma o melhor esforço numa harmonia pacífica que define a maneira correta de sustento.


O monge é chamado por Deus para viver sozinho nele:

Monos/monachos = um; sozinho; solitário.

Estando em comunidade ou em seu eremitério, o monge se esforça para ser alguém com um único ponto de concentração [focus]. Dentro do mercado de trabalho, o monge é um testemunho vivo da santidade do trabalho, da bondade do mundo e da salvação da terra pela misericórdia de Deus. Haja vista que a humildade deve caracterizar a vida de um monge, a simplicidade, a caridade, a bondade, a ternura e a compaixão exemplificam o desprendimento do coração que mantém livre o eremita e aquilo que lhe capacita para viver no mundo sem ser mundano.


O eremita urbano se esforça para renunciar ao que é mundano (centrar-se em si mesmo, ser egoísta, arrogante, oportunista e falso) para descartar essas atitudes mentais que impedem a sua comunhão com Deus e a harmonia com as criaturas deste frágil planeta.


O coração puro do solitário de Deus aprende a retornar ao mundo quantas vezes for necessário; não como um aventureiro que busca prazeres ou o poder material, mas como crucificado em Cristo, transfigurado por Cristo, restabelecido à inocência e à santidade da vida.


Gradualmente, a alma do monge – é o que se espera – torna-se transparente, límpida, vazia e transbordante

com a alegria que só vem de Deus.


O “Monastic Typicon” (tipógrafo monástico) da New Skete afirma que:

Oração e adoração são as principais preocupações da vida monástica. Através das celebrações litúrgicas, os monges participam dos mistérios da vida e da morte de Cristo, abordando as realidades universais da ressurreição e transfiguração (n. 60).


O eremita urbano, em comunhão com os monges e monjas de todos os tempos e lugares, vive, desse modo, o mistério pascal do Senhor, ao entrar nas celebrações litúrgicas, quer na liturgia das horas, quer na Eucaristia.


O ofício divino estabelece as horas do dia, conduzindo a alma em espiral através da salmodia: elevando-a, baixando-a, voltando-a para Deus e devolvendo-a à terra. O eremita urbano, que trabalha no mercado de trabalho do mundo, não pode se dar ao luxo de cantar tercia, sexta ou nona durante o dia. Mas sua oração interior nunca deve cessar, o acompanha em todas as suas ações, nos trabalhos de interação social, em todos os momentos e lugares em que somos mais livres para entrar profundamente na oração da Igreja.


O eremita urbano tenta celebrar o máximo possível as várias horas do ofício divino do dia, pois a vida no mundo exige que o monge cuide de suas tarefas sem perder o centro de sua vocação. Estão aí prima, laudes, matinas, vésperas, completas. 


Pelo menos parte das horas regulares deve ser celebrada estando ele sozinho ou na sua paróquia. Em algumas ocasiões, o eremita urbano pode se juntar a alguma comunidade religiosa para a observância da oração litúrgica.


A sabedoria do deserto é agora a sabedoria da cidade, da cidade de Deus. Seria insensato alguém carregar-se demais tentando trabalhar de 35 a 40 horas por semana fora do eremitério enquanto espera completar a liturgia das horas. 


Deus não precisa do impossível. A regra da fé é simples: faça o que é possível; faça o que puder. E faça o melhor que puder, com todo o seu coração, com toda a sua alma, com todo o seu ser. Concentre-se no melhor da sua existência no que você dá a Deus, sem esquecer o que você dá às pessoas.


Qual é a diferença entre o monge mascate do selvagem Egito, que de vez em quando saía para vender seus produtos no mercado, e o monge de hoje que trabalha com um computador no centro de Manhattan e tem que ir para o Brooklyn ou Queens pelo metrô? O que importa é o espírito, o coração do monge, a substância interior. O que define a vocação monástica é a singularidade de sua concentração.


A oração que é íntima e que se desdobra a cada momento, a cada hora, consolida nossa união com Deus e impulsiona a conversão de nossos corações repetidas vezes, tornando sagradas não só nossas pobres e frágeis vidas, mas também tudo o que tocamos e todos nós amamos. O monge é fermento no mercado de trabalho e permanece assim para apreciar e usar proveitosamente o silêncio e a reclusão de seu eremitério, mesmo quando ele passou muitas horas fora dele.


A liturgia das horas é, do começo ao fim, a maior celebração do coração e do centro da vida monástica. É a alegria dos cristãos e a alma do monaquismo. Cantar o ofício divino é entrar de novo e de novo no eterno mistério de Cristo. Em cada tempo litúrgico, seus textos ensinam o coração, renovam o espírito e unem a humanidade a Deus na pessoa de Cristo, o único que ama a humanidade.


Em grande medida, o monge pode celebrar a liturgia das horas em uma igreja da abadia com a comunidade de irmãs e irmãos, ou na igreja paroquial em qualquer lugar da cidade ou do meio em que vive. Isso não importa. No centro da liturgia está o sentido pleno da vocação monástica: morrer e ressuscitar com Cristo segundo a vontade do Pai a respeito da redenção do mundo.


A Eucaristia é o alimento da vida monástica, é o seu sustento e a sua alegria. Encontrar um monge que não gosta da liturgia é encontrar um tipo de monge ruim. Portanto, se deve dispor de tempo e para participar apropriadamente da celebração da Eucaristia. Ela é o coração e o centro da vida monástica. Pacômio e os monges da cristandade oriental celebravam a eucaristia semanalmente, mas o privilégio e a prática do rito latino a celebram diariamente.


Os cantos litúrgicos que acompanham a Eucaristia fornecem sustento espiritual para a contemplação. O eremita urbano sai da igreja depois de participar na liturgia e retorna à cidade, volta ao lugar oculto de sua Poustinia trazendo a riqueza da Escritura que foi lida durante a Eucaristia. Se for um pequeno apartamento num complexo residencial ocupado (ou) num lugar vasto industrial ou profissional, o canto e o significado da Liturgia das Horas e da Eucaristia permanecem com o eremita durante todo o dia, todos os dias, alimentando seu coração e sua mente com aquilo que permanece: o sopro vivo da vida contemplativa.


Finalmente, o eremita urbano aprende a proteger a reclusão religiosa e a solidão, que proporcionam a profundidade do silêncio e da concentração, indispensáveis para a vida monástica. A integridade deste modo de vida e a constância pessoal do monge a esta vocação, surgem da fonte de silêncio e solidão que amadurecem na reclusão. No entanto, o monge da cidade nunca deve se tornar um eremita preocupado consigo mesmo, alguém cuja tendência ao isolamento surja do auto-engano, como se o mundo fosse algo contagioso que ele tem que evitar a todo custo. Uma solidão equilibrada surge de uma visão saudável da realidade. 


O oposto é um tanto defeituoso.

Viver no meio do mundo como um eremita urbano não é sacrificar ou minimizar a qualidade essencial da reclusão e da solidão necessárias para a vida contemplativa. Os eremitas urbanos geralmente não são reclusos. Voltar-se para o interior de si mesmo para a contemplação é uma disciplina do coração, não um ato de paredes e defesas. Os monges de todo o mundo têm que ir e vir enquanto apreciam e protegem o santuário interior da reclusão monástica, elemento essencial da vida do eremita. Eles fazem isso ao estabelecer e manter os limites apropriados.


A hospitalidade e as necessidades sociais fazem parte da realidade, essenciais para o equilíbrio psicológico e espiritual, nem mais nem menos. Elas, além disso, precisam ser harmonizadas, como tudo o mais, com a realidade da vocação do monge da cidade. Acima de tudo, o eremita urbano deve aprender a equilibrar sua reclusão e sua implicação secular, porque, estando sozinho, é urgente entender o que constitui uma reclusão monástica necessária no mundo e o que constitui o estar fora.


Os extremos podem ser melhor abandonados pelo estudo dos evangelhos de Jesus Cristo. O Senhor retirou-se para orar, descansou no deserto e depois voltou para a cidade. Da mesma forma, o monge no mercado de trabalho precisa se separar do mundo. Se os monges hoje têm que ser o sal do mundo, “o mosteiro” deve ser acessível a todos, de modo que eles, que estão no mundo e entram em contato com a vida monástica “possam saborear sua vida, sua adoração e sua mensagem “(Monastic Typicon of New Skete, No. 28).


O monge que deixa o santuário silencioso de sua ermida oculta para ir ao centro da cidade e caminhar entre os povos do mundo, o faz por necessidade e generosidade; ele faz isso para que o mundo saboreie e desfrute a vida consagrada, o que ela é e o que significa, convidando o mundo a participar da adoração e da mensagem da vocação monástica. Não devemos nos esconder da vida, mas abraçá-la, imergir todos os aspectos dela no mistério de Cristo à medida em que nossa existência entra na realidade da Páscoa; desde nosso batismo até o dia da nossa vocação. Assim, tudo é transfigurado pela graça de Deus e tudo participa da transfiguração de Cristo.


Para o eremita urbano, esta integração harmoniosa de todas as coisas é o centro da vocação monástica. É desse modo exato que sempre foi para a vida monástica ao longo de sua história. É o ponto fixo de um mundo que gira, o lugar onde Deus e a humanidade se encontram e onde a centelha da sabedoria brota para iluminar a terra.


Eu gosto de pensar que, se, de repente, Bede Grifftihs ou Thomas Merton, ou qualquer um dos grandes monges e monjas que são nossos antepassados espirituais participassem de um dia ou uma semana na vida de um recluso urbano, se sentiriam o suficiente confortáveis Eles reconheceriam o ritmo da oração, do silêncio, da solidão, do trabalho, da hospitalidade, do estudo, da lectio divina e da liturgia.


Aqueles grandes seguidores de Santo Antão, pai do monaquismo egípcio; ou de São Bento, que codificou a vida monástica; ou dos muitos que existiam entre eles, reconheceriam no eremita urbano, no monge do mundo, o mesmo desejo por Deus que os conduziu durante toda a jornada espiritual. Eles reconheceriam o caminho, porque é apenas um: abandonar tudo, abraçar tudo; embarcar em uma viagem do coração através da escuridão e de lugares desolados, remotos e selvagens, no deserto e na cidade; lugares onde a vocação monástica prospera e onde Deus encontra a humanidade num singular abraço de amor.


Eremita Miguel das Dores

Referências:

– Chitty, D.J. 1961. The Desert a City. Oxford: Basil Blackwell.

– Griffiths, Bede, 1982. The Marriage of East and West. Springfield, Illinois: Templegate Publishers.

– Merton, Thomas, 1971. Contemplation in a World of Action. New York: Doubleday.

Autora: Theresa Mancuso- 1996 –


Tradução: Teófilo Aparecido de Jesus

Observação: A vida eremítica é possível a ambos os sexos, no artigo a autora parece ter colocado o eremita como homem no sentido de pessoa humana. A autora é eremita urbana nos Estados Unidos.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

O amor misericordioso de Deus



O primeiro texto bíblico é do livro de 1º Samuel. Ele conta a história de Davi e Saul. Davi é o ungido de Deus para ser o futuro rei de Israel, mas Saul, que é o rei atual, está com inveja dele e quer matá-lo.

Em uma ocasião, Saul chega a uma caverna onde Davi e seus homens estão escondidos. Davi tem a oportunidade de matar Saul, mas ele se recusa, dizendo que não vai tocar no ungido do Senhor.

Essa história nos mostra a misericórdia de Deus em Davi. Davi poderia ter matado Saul, mas ele não o fez. Davi sabia que Saul era o ungido de Deus e que, portanto, era intocável.

A misericórdia de Davi é um exemplo para nós. Nós também devemos ser misericordiosos com os nossos inimigos. Devemos perdoar aqueles que nos fizeram mal e devemos desejar o bem para eles.

O segundo texto bíblico é um salmo de Davi. Neste salmo, Davi expressa sua confiança no amor misericordioso de Deus. Ele diz que, mesmo que esteja cercado de inimigos, Deus o protegerá.

Essa confiança de Davi em Deus nos mostra que ele sabia que Deus estava com ele, mesmo nos momentos mais difíceis.

A confiança de Davi em Deus é um exemplo para nós. Nós também devemos confiar no amor misericordioso de Deus. Mesmo que estejamos passando por momentos difíceis, devemos saber que Deus está conosco e que ele nos ama.

O terceiro texto bíblico é do evangelho de Marcos. Ele conta a história da escolha dos doze apóstolos por Jesus. Jesus escolhe os apóstolos para estarem com ele e para anunciar o evangelho.

Essa escolha dos apóstolos é um sinal do amor misericordioso de Deus. Jesus escolheu pessoas comuns, de diferentes origens e classes sociais, para serem seus apóstolos. Isso mostra que Deus ama a todos, sem distinção.

Os três textos bíblicos que meditamos hoje nos convidam a refletir sobre o amor misericordioso de Deus. Deus é misericordioso com todos, inclusive com os seus inimigos. Ele nos ama e nos perdoa, mesmo quando nós pecamos.

Eu agradeço a Deus pelo seu amor misericordioso. Que eu possa sempre ser um instrumento desse amor no mundo.

  • Rezemos para que todos nós possamos ser imitadores de Davi, confiando no amor misericordioso de Deus e perdoando aqueles que nos fizeram mal.
  • Rezemos para que possamos ser apóstolos do amor misericordioso de Deus, anunciando-o a todos os que precisam.
  • Rezemos pelas pessoas que estão passando por momentos difíceis, para que elas possam confiar no amor misericordioso de Deus.

Reflexões 

Primeira reflexão: O amor misericordioso de Deus é incondicional. Deus nos ama, mesmo quando nós não merecemos. Ele nos ama, mesmo quando nós o rejeitamos.

Segunda reflexão: O amor misericordioso de Deus é transformador. Quando nós nos abrimos para o amor misericordioso de Deus, nós somos transformados. Nós nos tornamos mais compassivos, mais misericordiosos e mais parecidos com Deus.

Terceira reflexão: O amor misericordioso de Deus é contagioso. Quando nós compartilhamos o amor misericordioso de Deus com os outros, nós o espalhamos pelo mundo. Nós ajudamos a criar um mundo maisL

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Como vencer o mal da inveja ? Reflexão da Liturgia 18/01/24

 


A inveja que mata e a cura que salva


Por um eremita urbano


18 de janeiro de 2024




Meus irmãos e irmãs,


Hoje, a liturgia nos convida a refletir sobre dois temas importantes: a inveja e a cura.


No texto da primeira leitura, vemos um exemplo claro da inveja em ação. O rei Saul, que havia sido ungido por Deus para reinar sobre Israel, começou a sentir inveja de Davi, um jovem pastor que havia matado o gigante Golias. A inveja de Saul cresceu cada vez mais, até que ele tentou matar Davi várias vezes.


No texto do evangelho, Jesus cura um homem que estava possuído por um espírito maligno. O homem estava cego, mudo e endemoninhado. Jesus o curou, e o homem pôde ver, falar e viver uma vida normal.




A inveja é um sentimento de tristeza e descontentamento causado pelo sucesso ou bem-estar de outrem. Ela pode levar a atos de ódio, violência e até mesmo ao assassinato.


No caso de Saul, a inveja o levou a enxergar Davi como um inimigo, alguém que deveria ser eliminado. Ele perdeu a confiança em Deus e passou a confiar em seus próprios planos e ambições. A inveja o tornou um homem violento e cruel, que não hesitou em tentar matar Davi várias vezes.


A inveja pode nos prejudicar de diversas maneiras. Ela pode nos levar a sentir ressentimento, ódio e até mesmo violência. Ela também pode afetar nossas relações com os outros, tornando-as mais competitivas e desconfiadas.


Jesus veio ao mundo para curar os enfermos, libertar os oprimidos e trazer a paz. Ele é a cura para a inveja.


Jesus nos ensina que devemos amar o próximo como a nós mesmos. Ele nos mostra que todos somos filhos de Deus e que devemos nos tratar com amor e respeito.


Quando vivemos o amor de Jesus, somos curados da inveja. Passamos a nos alegrar pelo sucesso do próximo, e não mais sentimos ressentimento ou ódio.


A inveja no contexto místico


Do ponto de vista místico, a inveja é um sinal de que estamos centrados em nós mesmos. Quando sentimos inveja, estamos nos comparando com os outros e nos sentindo inferiores. Isso nos impede de nos conectarmos com Deus e com os outros de forma profunda.


Para vencer a inveja no contexto místico, precisamos nos concentrar em Deus e em Seu amor por nós. Quando nos sentimos amados por Deus, não precisamos nos comparar com os outros. Podemos simplesmente nos alegrar por sua felicidade e sucesso.


Algumas práticas que podem nos ajudar a vencer a inveja


Meditação. A meditação nos ajuda a nos centrar em Deus e a conectar com nossa essência divina.

Oração. A oração nos ajuda a nos abrir à presença de Deus e a receber Seu amor.

Serviço aos outros. O serviço aos outros nos ajuda a sair de nós mesmos e a conectar com o mundo ao nosso redor.


A inveja é um pecado que pode destruir a nossa vida e a vida dos outros. Vencer a inveja é um desafio, mas é possível com a ajuda de Deus.


Confiemos em Deus, pratiquemos a caridade e amemos o próximo como a nós mesmos. Seremos capazes de vencer a inveja e viver uma vida de amor e paz.


Meditação


(1) Medite sobre o exemplo de Saul. Como a inveja o levou a cometer atos de violência?


A inveja de Saul o levou a enxergar Davi como um inimigo, alguém que deveria ser eliminado. Ele perdeu a confiança em Deus e passou a confiar em seus próprios planos e ambições. A inveja o tornou um homem violento e cruel, que não hesitou em tentar matar Davi várias vezes.


(2) Como a inveja pode nos prejudicar? Como ela pode afetar nossas relações com os outros?


A inveja pode nos prejudicar de diversas maneiras. Ela pode nos levar a sentir ressentimento, ódio e até mesmo violência. Ela também pode afetar nossas relações com os outros, tornando-as mais competitivas e desconfiadas.


(3) Como podemos vencer a inveja? Quais são as armas espirituais que podemos usar?

Confie em Deus. A inveja é muitas vezes causada pelo medo e pela falta de confiança. 

(4) Faça uma oração pedindo a Deus que lhe ajude a vencer a inveja.


A inveja é um sentimento humano, que todos nós experimentamos de vez em quando. Ela pode ser causada por diversos fatores, como a comparação com os outros, a falta de confiança em nós mesmos ou a sensação de que não somos bons o suficiente.


Quando sentimos inveja, é importante reconhecer esse sentimento e entender suas causas. Isso nos ajudará a lidar com ele de forma saudável.


A inveja pode ser uma força destrutiva, que nos leva a fazer coisas que não queremos fazer. Ela pode nos levar a mentir, a roubar, a prejudicar os outros e até mesmo a cometer violência.


No caso de Saul, a inveja o levou a cometer atos terríveis. Ele tentou matar Davi várias vezes, e acabou perdendo o reino para ele.


Jesus, por outro lado, é a cura para a inveja. Ele nos ensina a amar o próximo como a nós mesmos. Ele nos mostra que todos somos filhos de Deus e que devemos nos tratar com amor e respeito.


Quando vivemos o amor de Jesus, somos curados da inveja. Passamos a nos alegrar pelo sucesso do próximo, e não mais sentimos ressentimento ou ódio.


Como cristãos somos chamados a viver o amor de Jesus no mundo. Somos chamados a ser sinais de esperança e de cura para um mundo marcado pela inveja e pela violência.


Podemos fazer isso vivendo uma vida simples e austera, que nos ajude a nos centrar em Deus. Podemos também praticar a caridade e o serviço aos outros, que nos ajudarão a amar o próximo como a 

nós mesmos.


Vencer a inveja é um desafio, mas é possível com a ajuda de Deus. Confiemos Nele e vivamos o amor de Jesus no mundo.


Que Deus nos abençoe!

Oração

Senhor, ajuda-nos a vencer a inveja. Dá-nos a fé para confiar em Ti e o amor para amar o próximo. Am

ém.



quinta-feira, 6 de agosto de 2020

A REGRA DO JEJUM

A Regra do Jejum – São Teófano, o Recluso


O jejum consiste em permanecer com Deus no pensamento e no coração abandonando todo o resto e recusando qualquer busca de si mesmo, tanto no espiritual como no material.
Devemos fazê-lo inteiramente para a glória de Deus e o bem do próximo, levando, voluntariamente e com amor, o jejum, as privações do sono e do descanso e negando-nos a satisfação que a companhia dos outros nos proporciona. Tais privações devem ser feitas com moderação, pois não se deve chamar a atenção nem nos debilitarmos a ponto de sermos incapazes de cumprir nossa oração.
 
Tradução: Gilmar Saint’ Clair Ribeiro
Texto retirado do livro Os Sentidos da Alma (Ed. Loyola, 1998).

domingo, 2 de agosto de 2020

18º Domingo Comum- Jesus, o Pão que sacia a nossa fome

O milagre da multiplicação dos pães | ORAÇÃO E REFLEXÃO

EVANGELHO – Mt 14,13-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
quando Jesus ouviu dizer que João Baptista tinha sido morto,
retirou-Se num barco para um local deserto e afastado.
Mas logo que as multidões o souberam,
deixando as suas cidades, seguiram-n’O a pé.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão
e, cheio de compaixão, curou os seus doentes.
Ao cair da tarde, os discípulos aproximaram-se de Jesus
e disseram-Lhe:
“Este local é deserto e a hora avançada.
Manda embora toda esta gente,
para que vá às aldeias comprar alimento”.
Mas Jesus respondeu-lhes:
“Não precisam de se ir embora; dai-lhes vós de comer”.
Disseram-Lhe eles:
“Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes”.
Disse Jesus: “Trazei-mos cá”.
Ordenou então à multidão que se sentasse na relva.
Tomou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos ao Céu e recitou a bênção.
Depois partiu os pães e deu-os aos discípulos
e os discípulos deram-nos à multidão.
Todos comeram e ficaram saciados.
E, dos pedaços que sobraram, encheram doze cestos.
Ora, os que comeram eram cerca de cinco mil homens,
sem contar mulheres e crianças.

Folhetos da Missa do 18º Domingo do Tempo Comum 2020 - 02/08/2020 ...

No capítulo 13 do Evangelho segundo Mateus, começa uma longa secção que poderíamos intitular “instrução sobre o Reino” (cf. Mt 13,1-17,27).
Na primeira parte desta secção (cf. Mt 13,1-52), Jesus apresentou em parábolas a realidade do Reino (como vimos, aliás, nos domingos anteriores). Como é que os interlocutores de Jesus reagiram, frente a essa apresentação viva, popular, interpeladora, questionante? Aderiram à proposta de Jesus?
A resposta a esta questão vai ser dada na segunda secção da “instrução sobre o Reino” (cf. Mt 13,53-17,27). De uma forma geral, a comunidade judaica responde negativamente ao desafio apresentado por Jesus. Quer os nazarenos (cf. Mt 13,53-58), quer Herodes (cf. Mt 14,1-12), quer os escribas, quer os fariseus, quer os saduceus (cf. Mt 15,1-9; 16,1-4. 5-12) recusam embarcar na aventura do Reino. Diante dessa recusa, Jesus volta-Se, cada vez mais decisivamente, para o pequeno grupo dos seus seguidores – os discípulos. Esse pequeno grupo vai-se definindo cada vez mais como a comunidade do Messias, que acolhe as propostas de Jesus e aceita o Reino. As multidões continuam a seguir Jesus; mas, cada vez mais, é aos discípulos que Jesus Se dirige e a quem destina a sua “instrução”.
O texto que nos é proposto neste domingo situa-nos no âmbito de uma refeição. O “banquete” é, para os semitas, o momento do encontro, da fraternidade, em que os convivas estabelecem entre si laços de familiaridade e de comunhão. É, portanto, símbolo desse mundo novo que há-de vir e no qual todos os homens se sentarão à mesa de Deus para celebrar a fraternidade, a igualdade e a felicidade sem fim. Torna-se, pois, um símbolo privilegiado desse Reino para o qual Jesus veio convidar os homens.

MENSAGEM

18º - Domingo do Tempo Comum - Homilia Pe Wagner Portugal

Na introdução ao episódio de hoje, Mateus anota que Jesus se retirou para o deserto, seguido por uma “grande multidão”; e que, impressionado pela fome de vida de toda essa gente, Se encheu “de compaixão e curou os seus doentes” (vers. 13-14).
Provavelmente, Mateus quer sugerir, com esta referência, que Jesus é um novo Moisés, cuja missão é libertar o seu Povo da escravidão, a fim de conduzi-lo à terra da liberdade e da vida plena. Como é que vai fazê-lo? Conduzindo-o ao deserto…
O deserto é, para Israel, o tempo e o espaço do encontro com Deus; aí, Israel aprendeu a despir-se das suas seguranças humanas, das suas certezas, da sua auto-suficiência, para descobrir que cada passo em direcção à liberdade, cada pedaço de pão caído do céu, cada gota de água que brota de um rochedo, é um “milagre” que é preciso agradecer ao amor de Deus. Tudo é um dom de Deus, que o Povo deve acolher com o coração agradecido. O deserto é ainda o lugar e o tempo da partilha, da igualdade, em que cada membro do Povo conta com a solidariedade do resto da comunidade, onde não há egoísmo, injustiça, prepotência, açambarcamento dos bens que pertencem a todos, e em que todos dão as mãos para superar as dificuldades da caminhada (no deserto, quem é egoísta, auto-suficiente e não aceita contar com os outros, está condenado à morte).
É esta experiência que Jesus vai convidar os discípulos a fazer. Vai ensinar-lhes – com uma lição concreta – que tudo é um dom que deve ser agradecido ao amor de Deus; e vai ensinar-lhes também que os dons de Deus são para ser partilhados, colocados ao serviço dos irmãos. É deste processo libertador – que conduz do egoísmo ao amor – que vai nascer a comunidade do Reino.
A história da multiplicação dos pães apresenta todas as características de uma lição, destinada a demonstrar como é que deve viver quem quer aderir ao Reino.
O primeiro momento desse processo pedagógico destinado a formar os membros do Reino tem a ver com a constatação da fome do mundo e com a responsabilização da comunidade do Reino nesse problema&hell
ip; Quando os discípulos Lhe pedem que mande a multidão embora, para que ela encontre comida (lavando as mãos face à situação de necessidade em que a multidão está), Jesus pede-lhes: “dai-lhes vós de comer” (vers. 16). Ensina-lhes, dessa forma, que têm uma responsabilidade inalienável face a esse desafio que o mundo dos pobres todos os dias grita… Depois disto, nunca um discípulo de Jesus poderá dizer que não tem nada a ver com a fome, com a miséria, com as necessidades dos mais desfavorecidos. Qualquer irmão necessitado – de pão, de alegria, de apoio, de esperança – é da responsabilidade dos discípulos de Jesus. A dinâmica do Reino passa pela solidariedade que torna todos os cristãos responsáveis pelas necessidades dos pobres.
No segundo momento deste processo pedagógico, Jesus ensina como dar resposta a este desafio. Começa por pedir aos discípulos que façam a listagem dos bens disponíveis; depois, toma os “cinco pães e dois peixes”, recita a bênção e manda repartir por todos os presentes… E todos comeram até ficarem saciados.
A lição é clara: diante do apelo dos pobres, a comunidade do Reino tem de aprender a partilhar. “Cinco pães e dois peixes” significam totalidade (“sete”): é na partilha da totalidade do que se tem que se responde à carência dos irmãos. É uma totalidade fraccionada e diversificada mas que, posta ao serviço dos irmãos, sacia a fome do mundo. A comunidade do Reino é, portanto, não só uma comunidade que se sente responsável pela fome dos irmãos, mas também uma comunidade de coração aberto, disposta a repartir tudo o que tem… É uma comunidade que venceu a escravidão do egoísmo, para fazer a experiência da partilha que sacia e que torna todos os homens irmãos.
No terceiro momento deste processo pedagógico, Jesus dá a razão para a partilha. “Tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu e recitou a bênção” (vers. 19). A “bênção” é uma fórmula de acção de graças, na qual se agradece a Deus pelos seus dons. Isso significa, em concreto, reconhecer que algo que se possui é um dom recebido de Deus… Para quem? Para um único homem ou para uma única família? Mas Deus não é o Pai de todos, que se preocupa com todos e que a todos ama da mesma forma? Portanto, “pronunciar a bênção” é reconhecer que determinado dom veio de Deus e que pertence a todos os filhos de Deus. Aquele que recebeu esse dom não é o seu dono; mas é apenas um administrador a quem Deus confiou determinado dom, para que o pusesse ao serviço dos irmãos com a mesma gratuidade com que o recebeu. À comunidade do Reino é proposto que aprenda a considerar os bens postos à sua disposição como dons de Deus Pai, colocando-os livremente ao serviço de todos.
Jesus é aqui apresentado como o novo Moisés, cuja missão é realizar a libertação do seu Povo e oferecer-lhe a vida em abundância. Como é que Ele o faz? Criando a comunidade do Reino – isto é, uma comunidade de homens novos, que reconhecem que tudo o que têm é um dom de Deus, destinado a ser partilhado com os outros irmãos.

ATULIZAÇÃO

2 de agosto - Missa do 18° Domingo do Tempo Comum 2020 | Portal Kairós

Na reflexão, ter em conta os seguintes aspectos:

• Antes de mais, o texto convida-nos a reflectir sobre a preocupação de Deus em oferecer a todos os homens a vida em abundância. Ele convida todos os homens para o “banquete” do Reino… Aos desclassificados e proscritos que vivem à margem da vida e da história, aos que têm fome de amor e de justiça, aos que vivem atolados no desespero, aos que têm permanentemente os olhos toldados por lágrimas de tristeza, aos que o mundo condena e marginaliza, aos que não têm pão na mesa nem paz no coração, Deus diz: “quero oferecer-te essa plenitude de vida que os homens teus irmãos te negam. Tu também estás convidado para a mesa do Reino”.

• A nossa responsabilidade de seguidores de Jesus compromete-nos com a “fome” do mundo. Nenhum cristão pode dizer que não tem culpa pelo facto de 80 por cento da humanidade ser obrigada a viver com 20 por cento dos recursos disponíveis… Nenhum cristão pode “lavar as mãos” quando se gastam em armas e extravagâncias recursos que deviam estar ao serviço da saúde, da educação, da habitação, da construção de redes de saneamento básico… Nenhum cristão pode dormir tranquilo quando tantos homens e mulheres, depois de uma vida de trabalho, recebem pensões miseráveis que mal dão para pagar os medicamentos, enquanto se gastam quantias exorbitantes em obras de fachada que só servem para satisfazer o ego dos donos do mundo… Nós temos responsabilidades na forma como o mundo se constrói… Que podemos fazer para que o nosso mundo seja alicerçado sobre outros valores?

• É preciso criarmos a consciência de que os bens criados por Deus pertencem a todos os homens e não a um grupo restrito de privilegiados. O Vaticano II afirma: “Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os povos; de modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos (…). Sejam quais forem as formas de propriedade, conforme as legítimas instituições dos povos e segundo as diferentes e mutáveis circunstâncias, deve-se sempre atender a este destino universal dos bens. Por esta razão, quem usa desses bens temporais, não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si, mas também os outros. De resto, todos têm o direito de ter uma parte de bens suficientes para si e suas famílias” (Gaudium et Spes, 69). Como me situo face aos bens? Vejo os bens que Deus me concedeu como “meus, muito meus e só meus”, ou como dons que Deus depositou nas minhas mãos para eu administrar e partilhar, mas que pertencem a todos os homens?

• O problema da fome no mundo não se resolve recorrendo a programas de assistência social, de “rendimento mínimo garantido” ou de outros esquemas de “caridadezinha”; mas resolve-se recorrendo a uma verdadeira revolução das mentalidades, que leve os homens a interiorizar a lógica de partilha. Os bens que Deus colocou à disposição dos seus filhos não podem ser açambarcados por alguns; pertencem a todos os homens e devem ser postos ao serviço de todos. É preciso quebrar a lógica do capitalismo, a lógica egoísta do lucro (mesmo quando ela reparte alguns trocos pelos miseráveis para aliviar a consciência dos exploradores), e substitui-la pela lógica do dom, da partilha, do amor. Sem isto, nenhuma mudança social criará, de verdade, um mundo mais justo e mais fraterno.

• A narração que hoje nos é proposta tem um inegável contexto eucarístico (as palavras “ergueu os olhos ao céu e recitou a bênção, partiu os pães e deu-os aos discípulos” levam-nos à fórmula que usamos sempre que celebramos a Eucaristia). Na verdade, sentar-se à mesa com Jesus e receber o pão que Ele oferece (Eucaristia) é comprometer-se com a dinâmica do Reino e é assumir a lógica da partilha, do amor, do serviço. Celebrar a Eucaristia obriga-nos a lutar contra as desigualdades, os sistemas de exploração, os esquemas de açambarcamento dos bens, os esbanjamentos, a procura de bens supérfluos… Quando celebramos a Eucaristia e nos comprometemos com uma lógica de partilha e de dom, estamos a tornar Jesus presente no mundo e a fazer com que o Reino seja uma realidade viva na história dos homens.Celebrar em família: baixe o roteiro para o 18º Domingo do Tempo ...